Diário
de Bordo – Karimai 09/06/2015
Para dar início a este Diário de
Bordo do processo de criação do espetáculo Karimai, gostaria de mencionar duas
citações. A primeira é de uma música da Marjorie Estiano, “pra quê manter os
pés no chão se todo mundo quer voar...”. A segunda é uma fala da Willemara
Barros, considerada uma das mais importantes bailarinas do Ceará, em sua
aula-espetáculo de comemoração dos seus cinquenta anos de vida e quarenta de
dança na VI Semana D da Dança, festival que acontece todo mês de Abril no
Cariri, em que se lembra de um diálogo com seu marido Fauller: “- Willa me
ensina a dança. (Ele) – Dançar tu já sabe Fauller, mas se me deres a mão juntos
poderemos voar. (Ela)”. São duas frases que mexem muito comigo e que nunca
esqueci desde a primeira vez que escutei. Elas fazem com que o meu Eu bailarino
deseje voar e isso percebo na proposta do espetáculo, bailarinos voando como
pássaros, mesmo que no sentido literal, mas que seus interiores sejam
contaminados com verdadeiros pássaros e borboletas passando essa sensação para
o público.
A cada ensaio o Alysson pede a um dos
bailarinos para fazer o diário de bordo e não tinha dito que se os demais
também quisessem manifestar suas sensações seria permitido. No ensaio passado,
sábado 06, eu não fui escolhido para escrever, mas fui pra casa com essa
necessidade, tinha angústias e passei o resto do dia com elas tomando conta de
mim, até que à noite desabafei com um amigo. Eu não consegui fazer nada nessa
tarde, estudar, conversar, ou se quer comer direito, apenas ficar deitado
pensando e pensando e pensando... Sou uma pessoa que guarda suas sensações para
si, difícil de abrir-se com as pessoas, até mesmo com os amigos e isso vai me
sufocando, vou sofrendo calado. No sábado ensaiamos e percebi que meu
rendimento não foi um dos melhores, isso estava me torturando, roubando toda
minha concentração. Eu tenho mania de perfeição e por gostar tanto desse
processo e desejar estar nesse trabalho acabei pecando nesse ponto. Depois
tivemos uma reunião e colocamos em pauta os assuntos dos últimos meses, acho
que seria necessário pensarmos em adocicar nossas palavras e atitudes, algumas
deixam o clima pesado e pode acabar ferindo alguém. Eu também tenho uma teoria,
minha teoria é sobre momentos, apesar de ansiar pelo futuro. Falar quando as
palavras forem necessárias e fazer silêncio quando não forem.Estou vivendo esse
momento e sendo contaminado por ele. Hoje estou mais leve e preciso dessa
leveza para ser como um pássaro.
A aula de hoje foi diferente, nossa
professora de Ballet Clássico não poderia estar presente e seria substituída
pelo Alysson que teve um imprevisto de última hora e não pode dar a aula, então
a Kelyenne deu aula de Capoeira para a Cia. É uma aula que exige muito e quando
se está na ADC desde as 15h30 dando aulas, ensaiando, fazendo aula e ainda
malhando, às 19h você está exausto para uma aula dessas, é preciso uma certa
preparação para fazê-la.
Depois fomos ensaiar, eu estava mais
leve, foi um ensaio gostoso. A princípio começamos relembrando as partituras e
em seguida mostrando-as ao Alysson na ordem que ele pedia. Em certo momento que
um dos grupos passava e eu estava de fora estudando, notei-o dando pulinhos de
alegria, entusiasmado com os resultados, são pequenos gestos que me motivam
ainda mais, eliminam o cansaço físico e fazem com que o desejo pelo espetáculo
aumente. Teve a apresentação do Duo dos meninos, Erick e Leo, foi lindo,
pareciam verdadeiros pássaros, estou muito orgulhoso com o crescimento dos meus
amigos, muito feliz por eles, são pessoas especiais e merecedoras de todo
reconhecimento. Mais tarde fomos surpreendidos com a presença do Di Freitas,
nosso músico, trazendo a prévia de seis músicas para o espetáculo, foi uma enorme
alegria contagiando a sala. Após o ensaio fizemos uma roda de conversa, o
Alysson disse para não nos preocuparmos com a confusão de cenas que estava no
início, pelo contrário, eu já vejo um trabalho consistente que me proporciona
enxergá-lo no futuro através de devaneios, a cada ensaio vejo o espetáculo mais
solidificado. Fizemos um estudo dos figurinos, imagens incríveis e motivadoras
foram apresentadas. Eu fui pra casa mais leve, pensando em Karimai.
Finalizo com uma mensagem que vi
recentemente no Instagram de um autor desconhecido, “NÃO COLOQUE LIMITES NOS
SEUS SONHOS, COLOQUE FÉ”.
Allef
Lira.

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