Diário de bordo 30/06/2015
Suzana Carneiro
Ainda não havia parado para
degustar por tanto tempo a obra visual de um artista plástico, essa experiência
estética provocada pela obra de karimay possibilita-me vivencia outros lugares
da minha percepção sensorial. Vejo meu
mundo, o lugar onde sempre estive um lugar comum a meus olhos, revestido de
suas cores, seus traços, ao mesmo tempo em que suas provocações amplia meu
olhar para esse mesmo mundo deixando de ser um para se tornar múltiplos.
Está dentro do processo de
montagem, participar de todas as etapas de sua construção vem educando os meus
sentidos, pelas múltiplas provocações que vivenciamos a cada encontro, essa
suspensão etérea, o lirismo nas ideais são proposições inspiradas e maturadas a
cada obra nova que conhecemos, acredito que isso só é possível por pensarmos de
forma processual na concepção do trabalho.
Vejo o processo de montagem
como a construção de um ser: Aos poucos estruturamos um corpo; agrupamos sua
ossatura; colocamos órgãos; tecidos; veias; canais nervosos; vias sanguíneas; organizamos
sua estrutura muscular; delineamos seus traços suas qualidades
corporais...
Hoje o que parece é que
encontramos a alma do trabalho, a parte sensível dele, o lugar na obra de arte
que nos permite suspender o virtuosismo, a técnica e transcende sua criação, o
lugar visível a penas, pela parte invisível de cada interprete- criador.
Penso que a alma do trabalho
é essa “lembrança feliz” em que todas falam quando memoram sobre a existência
de Karimay aqui neste plano. Saber a historia desse homem conforta nosso olhar
sobre o mundo.
O que mais me encanta é ver
seu respeito e amor pela natureza, pela delicadeza das coisas, pela
simplicidade da vida. Lembrei-me de quando era criança, da neve que de
manhãzinha cobria a praça, nada se via, se eu já enxergasse pelas cores dos
seus quadros, hoje eu narraria: “na minha infância de manhã a praça parecia com
o céu de Karimay”.
A experiência, a possibilidade
de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto
que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar
para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e
escutar mais devagar, parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos
detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade,
suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os
olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão,
escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e
dar-se tempo e espaço. (LARROSA, 2002, pag.22)
Talvez, fossem essas
provocações que Karimay proponha nos seus quadros, enxergar o mundo em minúcia,
“demorar-se nos detalhes”, “suspender o automatismo da ação”.

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