quinta-feira, 2 de julho de 2015

Diario do bordo 30 06 2015 por Suzana Carneiro



Diário de bordo 30/06/2015

Suzana Carneiro

Ainda não havia parado para degustar por tanto tempo a obra visual de um artista plástico, essa experiência estética provocada pela obra de karimay possibilita-me vivencia outros lugares da minha percepção sensorial.  Vejo meu mundo, o lugar onde sempre estive um lugar comum a meus olhos, revestido de suas cores, seus traços, ao mesmo tempo em que suas provocações amplia meu olhar para esse mesmo mundo deixando de ser um para se tornar múltiplos.
Está dentro do processo de montagem, participar de todas as etapas de sua construção vem educando os meus sentidos, pelas múltiplas provocações que vivenciamos a cada encontro, essa suspensão etérea, o lirismo nas ideais são proposições inspiradas e maturadas a cada obra nova que conhecemos, acredito que isso só é possível por pensarmos de forma processual na concepção do trabalho.
Vejo o processo de montagem como a construção de um ser: Aos poucos estruturamos um corpo; agrupamos sua ossatura; colocamos órgãos; tecidos; veias; canais nervosos; vias sanguíneas; organizamos sua estrutura muscular; delineamos seus traços suas qualidades corporais... 
Hoje o que parece é que encontramos a alma do trabalho, a parte sensível dele, o lugar na obra de arte que nos permite suspender o virtuosismo, a técnica e transcende sua criação, o lugar visível a penas, pela parte invisível de cada interprete- criador.
Penso que a alma do trabalho é essa “lembrança feliz” em que todas falam quando memoram sobre a existência de Karimay aqui neste plano. Saber a historia desse homem conforta nosso olhar sobre o mundo. 
O que mais me encanta é ver seu respeito e amor pela natureza, pela delicadeza das coisas, pela simplicidade da vida. Lembrei-me de quando era criança, da neve que de manhãzinha cobria a praça, nada se via, se eu já enxergasse pelas cores dos seus quadros, hoje eu narraria: “na minha infância de manhã a praça parecia com o céu de Karimay”.



A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar, parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço. (LARROSA, 2002, pag.22)


Talvez, fossem essas provocações que Karimay proponha nos seus quadros, enxergar o mundo em minúcia, “demorar-se nos detalhes”, “suspender o automatismo da ação”.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário